Valdir Viana, foto de Tony Medeiros
Valdir Viana, foto de Tony Medeiros

Um dos mais conhecidos Curadores Populares do Amazonas, o parintinense Waldir Martins Viana fez história e transformou uma sociedade com a sua fé e devoção em restaurar a saúde de todos que os procuraram. Nascido em 1910, filho de Domingos Viana e Maria Martins Viana. O “seo” Waldir Viana era o mais velho entre os dez irmãos. Seus pais, de origem nordestina, dedicaram-se à pecuária de subsistência, experiência passada também ao filho, tornando-se, assim, médio pecuarista do município de Parintins.

Casou-se co a Sílvia Barbosa o que rendeu desse relacionamento amoroso sete filhos.

Segundo relatos da família, Waldir acalantava o sonho de estudar medicina ortopédica, no entanto, para a época, “o valor do homem” (concepção paterna) residia no acúmulo de bens. Assim, não investira esforços para oferecer ao filho oportunidades de realizar o sonho.

Na busca pelo sonho, ainda jovem fugira para Itacoatiara /AM, mas fora resgatado pelo pai.

Aos 17 anos, passou a frequentar sessões espíritas coordenadas por “Tia Nicota” (única referência). Descobrira ali outra via para agasalhar a utopia frustrada.

Waldir Viana realizando tratamento em paciente. / Foto : Divulgação
Waldir Viana realizando tratamento em paciente. / Foto : Divulgação

Nas experiências adquiridas com “Tia Nicota” desenvolveu conhecimentos de cura sobre picadas de cobra e ferradas de arraia. Posteriormente, com apoio de seu irmão de leite – o médico Dr. Arnaldo Prado – realizou estudos ortopédicos na cidade de Belém/PA, em cadáveres de indigentes não identificados, deixados em valas apropriadas para esse fim.

Aos 40 anos, sua vida toma novos rumos. Na época, Parintins contava com limitada assistência médica. Assim, a partir das experiências adquiridas em saúde natural, pessoas de classes sociais diversas passaram a procurá-lo. Seus cuidados somados à fé dos adoecidos devolviam-lhes a saúde.

Por essa via de reconhecimento, a “fama” de Waldir se espalhara em Parintins, municípios vizinhos, no Estado e em outras regiões do País.

Waldir sempre quis estudar ortopedia, mas foi impedido por seu pai / foto : Divulgação
Waldir sempre quis estudar ortopedia, mas foi impedido por seu pai / foto : Divulgação

A maior procura por seus cuidados relacionavam-se a fraturas ósseas, picadas de cobra, ferradas de arraia, coluna vertebral e males do cotidiano. Ervas de nossa flora e orações específicas constituíam a base de suas terapias.

Dentre as principais fórmulas curativas desenvolvidas por Waldir, destaca-se o suco do paracari, erva da região utilizada como antídoto a peçonhas de ofídios, escorpiões, aranhas e arraia.

A atenção aos adoecidos acontecia em sua residência, propriedade rural, denominada Redenção, situada na Comunidade Parananema, área próxima à cidade. E quando solicitado, socorria-os na casa destes com total zelo e solidariedade.

Waldir portava também excelente senso de humor. Durante as terapias não usava anestésicos e para distrair a atenção dos pacientes contava-lhes causos fantásticos como recurso terapêutico. Logo, era comum denominar-se ‘Viana’ ou ‘Vianas’ as histórias fantasiosas da Ilha.

Outra particularidade desse Curador: tinha domínio sobre ofídios venenosos. Conta-nos Rai Viana, filho de Waldir, 65, professor, residente em Parintins que, certa vez, o Pai entrara num barco ancorado no porto de sua propriedade. Observou ali um surucucu enrolado. Aproximou-se para retirá-lo, o animal, porém, reagiu. Questionou-se sobre o que havia de errado. Descobriu um molho de chaves preso ao cinto o que, deduziu, neutralizar seu domínio sobre a cobra. Desfez-se das chaves e, sem problemas, retirou dali o surucucu.

Não tinha explicações lógicas para o fato. Sabia apenas que o metal “atrapalhava” aquela relação.

Lembrara também outro fato: Rai e mais um grupo de trabalhadores roçavam um campo na comunidade Zé Açu, interior de Parintins. Em meio ao trabalho, encontraram numa moita marimbondos furiosos, impedindo-os de realizar o trabalho.

Waldir se aproximara questionando o porquê daquela moita intacta. Retrucaram, alegando a ferocidade das cabas. Rapidamente, tirou o chapéu, colocou-o na cabeça do filho alegando que precisava protegê-lo do sol excessivo. Em seguida, pai e filho realizaram a roçada na moita, sem problemas. Inexplicavelmente, as cabas se aquietaram como se estivessem hipnotizadas.

Para alguns médicos do serviço oficial de saúde as práticas curativas de Waldir eram interpretadas como charlatanismo. Em contrapartida, Rai Viana referendou o apoio inconteste ao Pai pelo médico pernambucano, Dr. Romualdo Correa, residente em Parintins, há mais de 50 anos. Durante o funeral, Dr. Romualdo, emocionado, externara seu pesar por não ter “bebido mais daquela fonte de conhecimento popular em saúde”.

Este Homem de Luz também fora destaque nas mídias do estado do Amazonas, em toadas dos bumbás Garantido e Caprichoso por ocasião do Festival Folclórico de Parintins, entre 2002 a 2007, além de reverências honrosas, sempre acatadas com simplicidade.

Faleceu em junho de 2005, aos 95 anos, deixando provas de que a ciência oficial tem muito a aprender com esses Anônimos em cujos desejos de ampliar o direito à vida, desenvolvem seus dons curativos e os colocam a serviço de todos, indiscriminadamente.

Waldir Viana realizando tratamento de coluna em paciente. / Foto : Divulgação
Waldir Viana realizando tratamento de coluna em paciente. / Foto : Divulgação

Em suma, as contribuições de Waldir Viana precisam ir além da oralidade. É importante divulgar Sua Memória até como provocação para um possível desenvolvimento dos Saberes e Práticas Popular/Tradicionais tão importantes na Promoção da Saúde Coletiva.

Que as energias de Waldir irradie a sensibilidade necessária sobre o Sistema de Saúde para que os ideais defendidos na 8ª Conferência Nacional – Responsável pela luta e formulação do conjunto de conquistas obtidas na Constituição de 1988 – encontrem em nossa Região o terreno propício para o florescimento de uma Saúde “direito de todos e dever do Estado”. E, se a desesperança na vida e na humanidade apagarem nossa vontade de transformação, que ‘Vianas’ descontraiam nosso eu, abrindo-nos as portas para outro mundo possível.

Enterro de Valdir Viana / Foto: Hamilton Bahia
Enterro de Valdir Viana / Foto: Hamilton Bahia

Valdir Viana é o personagem símbolo da cultura popular de Parintins, por ter realizado curas milagrosas com o dom de pegador de ossos. Ele ficou doente em 1998, vítima de derrame cerebral. Perdeu a fala,teve uma perna amputada e em 2001 perdeu a memória.

Ele ficou conhecido em Parintins como o “médico dos ossos” e enumerou curas de quebraduras e mordidas de serpentes. Usava em suas curas o sumo de paracari, um arbusto da área de Terra-Firme. A erva se tornava milagrosa nas mãos de Valdir Viana.

O nome de Waldir está marcado na história de Parintins. O curandeiro também já foi homenageado diversas vezes em Parintins, tem um centro de saúde na cidade com o seu nome, seu nome já foi citado várias vezes em toadas, inclusive tem uma composta em sua homenagem. Composta pelo grande artista Parintinense Chico da Silva, a toada “Missionário da Luz” entrou como toada oficial do boi Caprichoso em 1991. Ouça a toada abaixo:

Fonte: noamazonaseassim.com.br

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