Doutora pelo Inpa recebe Prêmio Capes de Tese 2026 com pesquisa transdisciplinar sobre florestas culturais na Amazônia


Prêmio Capes de Tese 2026

Doutora pelo Inpa recebe Prêmio Capes de Tese 2026 com pesquisa transdisciplinar sobre florestas culturais na Amazônia
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A bióloga Mariana Franco Cassino, egressa dos cursos de mestrado e doutorado em botânica do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), é uma das vencedoras do Prêmio Capes de Tese 2026 na área de Biodiversidade, com a pesquisa “Gente, plantas, animais e outros seres – Uma abordagem multi-perspectiva das paisagens culturais amazônicas”, que propõe um outro olhar sobre a domesticação da Amazônia a partir de perspectivas indígenas e do estudo do sítio arqueológico Ponta da Castanha, na Floresta Nacional de Tefé, na Amazônia Central.

Para Mariana, o prêmio é a legitimação de um trabalho coletivo, fruto de muitas ideias e inspirações compartilhadas ao longo de sua trajetória acadêmica e sob influência do pensamento de colegas indígenas. “Vejo esse prêmio como um reconhecimento de que pensar junto, integrar disciplinas científicas, dialogar perspectivas distintas sobre as florestas e reconhecer e levar a sério os mundos indígenas é precioso e vital para que possamos compreender e viver a Amazônia”, afirmou a bióloga.

A tese investigou como humanos e não-humanos moldam e sustentam paisagens ao longo do tempo. O estudo adota abordagem transdisciplinar e interepistemológica, integrando botânica, arqueologia, ecologia, antropologia e epistemologias indígenas, e tem como foco um mosaico de florestas culturais com, pelo menos, três mil anos de história de ocupação humana na Amazônia Central.

Com o apoio de uma ampla rede de colaboração, a pesquisa envolveu o Inpa, o Instituto Mamirauá, em Tefé – onde foi realizado o trabalho de campo, o Museu da Amazônia (Musa), a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), onde atua a coorientadora Myrtle Shock, e a Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, na qual Mariana também cursou o doutorado em História em regime de cotutela com o PPG Botânica/Inpa, sob orientação de Marco Madella, no exterior, e Charles Clement, no Inpa.

Da pesquisa emergem quatro proposições centrais que rompem com a dicotomia natureza/cultura da ciência ocidental e defendem o engajamento com os mundos indígenas como caminho para compreender os sistemas socioecológicos amazônicos.

Entre os principais resultados, a tese demonstra que as populações amazônicas favorecem uma ampla diversidade de plantas alimentícias desde o início da ocupação humana no bioma; que as comunidades vegetais do presente devem ser consideradas artefatos culturais e incorporadas à pesquisa arqueológica; que as comunidades humanas geram heterogeneidade na paisagem ao criar mosaicos com diversidade funcional; e que, nas paisagens culturais amazônicas, a ação humana é inseparável da ação de plantas, animais e seres imateriais.

Trajetória

Bióloga formada pela Universidade Federal de Viçosa, com mestrado e doutorado em Botânica pelo Inpa e doutorado em História pela Universidade Pompeu Fabra, Mariana destaca a contribuição do Inpa para sua trajetória.

“O Inpa tem um papel fundamental na minha formação. Foi através desta instituição que tive minhas primeiras experiências de campo na Amazônia, quando cheguei aqui em 2008 para fazer o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Botânica. Depois de um período de pesquisa no Instituto Mamirauá e na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), voltei ao Inpa para realizar o doutorado. O Inpa foi um espaço importante para consolidar as bases da pesquisa que deu origem à minha tese”, destacou ela, observando a importância da colaboração de seu orientador no doutorado, Charles Clement, sua grande inspiração. Foi o pesquisador do Inpa que lhe abriu caminhos de colaboração e troca de ideias com redes de cientistas do mundo todo.

“Os alunos do Charles formam um grupo pulsante e vivo, muito motivado por suas provocações, generosidade e bom humor. Estar imersa nesse contexto de pesquisa me permitiu desenvolver a minha tese em um ambiente de intensa troca de ideias, curiosidade e colaboração”, concluiu.

Para Clement, o Prêmio Capes de Teses é o reconhecimento de qualidade em pós-graduação mais importante do Brasil e a tese de Mariana atende todos os requisitos da necessários. O pesquisador do Inpa destaca que Mariana fez seu mestrado em Botânica no Inpa, com Maria Silvia Mendonça, passou um tempo com os arqueólogos de Mamirauá, e chegou para seu doutorado com seus objetivos bem definidos. “Além de ser muito inteligente e focada no que quer, Mariana é independente e colabora bem com colegas, de forma que sua rede de pesquisa já é ampla”, observou Charles Clement.

Próxima etapa

Esse foi o resultado preliminar do Prêmio Capes de Tese 2026, que contemplou 50 trabalhos defendidos em 2025. A etapa final vai acontecer em 12 de novembro, com a premiação de uma pesquisa de cada grande área.

Serão três eixos que levam o nome de cientistas brasileiros: o primeiro compreende as Ciências Biológicas, da Saúde e Agrárias e vai homenagear Sonia Machado de Campos Dietrich; o conjunto das Engenharias, Ciências Exatas e da Terra e Multidisciplinar terão como expoente Maria Laura Mouzinho Leite Lopes; e, finalmente, Maria Beatriz do Nascimento dará seu nome ao grupo das Ciências Humanas, Linguística, Letras, Artes e Ciências Sociais Aplicadas.

Como Mariana Cassino venceu a etapa preliminar, seu trabalho continua concorrendo no Grande Prêmio Capes de Tese, na grande área que inclui as Ciências Biológicas. Para o orientador Charles Clement, “Mariana e sua tese têm tudo para chegar ao finalíssimo do prêmio, que vai ser conhecido em novembro”.

Fonte: INPA