Mural sobre a presença indígena será destaque em memorial

“São quatro imagens nos 140 metros quadrados do mural retiradas de livros históricos, mostrando o mapa das calhas dos rios onde existe a forte presença dos povos indígenas no Amazonas desde muito antes da presença europeia, além do herói-ícone da luta, o grande Ajuricaba; ainda os Manaos e o cemitério indígena na visão do colonizador quando aqui chegou”, explica o diretor-presidente da Fundação Municipal Cultura, Turismo e Eventos (Manauscult), Alonso Oliveira.

Ele reforça a recomendação feita pelo prefeito David Almeida em reparar essa invisibilidade indígena e o protagonismo da narrativa da história da cidade de Manaus, reconhecendo o espaço do cemitério como um lugar sagrado pelos povos que compõem a ancestralidade da sociedade manauara. “Estamos começando a reparar o passivo histórico do poder público com nossos irmãos indígenas, e este belo painel mostra a importância dos povos ancestrais na formação social e cultural de nossa sociedade”, declarou Oliveira.

O artista muralista, Fábio Ortiz, 27, autor de painéis de grafitte urbano, é estudante de Agronomia na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), filho de pais ribeirinhos do munícipio de Manacapuru, com descendência de peruanos e nordestinos. Ele estava pensando em desistir da arte do grafitte por conta das dificuldades da pandemia, quando procurou a Manauscult para saber sobre os projetos de incentivo. “Hoje me sinto contemplado de poder contar essa história de tantos séculos de existência e luta”, fala orgulhoso Ortiz, ressaltando que tem aprendido muito sobre o protagonismo dos povos indígenas na história de Manaus e do Amazonas.

Cosmologia indígena

O professor doutor em Antropologia Cultural, João Paulo Barreto Tukano, o porta-voz dos indigenas na reivindicação para a atual conquista do memorial, explicou a importância e o que representa a arte retratada no mural em frente ao Memorial Indígena. “O painel com o mapa representa que nesse território existiu, existe e vai sempre existir povos que habitam nela. O desenho é uma expressão da cultura indígena, do território sagrado dos povos originários”.

Como consequência, a arte apresenta também as imagens, os retratos da presença indígena, mostrando que aqui existiram povos originários com culturas, com pensamento e filosofia diferentes daqueles que vieram do Ocidente. “Assim essa representação no desenho fala dos povos indígenas e do seu território; terra considerada como corpos indígenas, retratando o território”, destacou o professor.

Ele explica que o cemitério retratado não é meramente uma terra qualquer. “Porque terra para nós é um corpo humano sobretudo um corpo de mulher porque só existem duas condições de gerar vida: como terra ou como mulher”. Portanto, essa noção é muito importante para os povos indígenas, na medida em que quando consideram como corpo de mulher é preciso de cuidado especial, de uma relação de pessoas de seres humanos. “O retrato do cemitério significa que aí estão os corpos indígenas de volta ao corpo e à casa da mãe terra, e como mãe nos acolhe, nos recebe no seu corpo. Ali estão presentes os corpos e os espíritos indígenas, portanto para nós é um solo sagrado esse sentido de casa e para nós é muito importante”, complementou.

O professor conclui explicando a importância do local onde será inaugurado o memorial. “Essa noção nos leva a considerar que esse lugar é especial, onde podemos nos comunicar, interagir por vários meios, como através do sonho, com nossos entes queridos que já foram, mas estão aí presentes”.

Texto – Cristóvão Nonato / Concultura

Foto – Oliveira Júnior / Manauscult