O Setembro Amarelo, campanha nacional de conscientização sobre a valorização da vida, amplia durante este mês o debate sobre saúde mental e as diferentes formas de cuidado e prevenção. Nesse contexto, o exercício físico aparece como uma ferramenta acessível que pode contribuir não apenas para a saúde cardiovascular e muscular, mas também para a regulação do estresse, da ansiedade e do humor.
Dados do Inquérito Telefônico de Fatores de Risco para Doenças Crônicas não Transmissíveis em Tempos de Pandemia (Covitel) 2023 apontam que 26,8% dos brasileiros receberam diagnóstico médico de ansiedade, enquanto 12,7% foram diagnosticados com depressão. O país também aparece em levantamentos da Organização Mundial da Saúde (OMS) entre aqueles com maior prevalência de transtornos de ansiedade.
Para o profissional de Educação Física e fisiologista Jauan Anselmo, o exercício deve ser compreendido como parte de uma estratégia mais ampla de cuidado com a saúde mental. A prática regular provoca respostas fisiológicas e neuroquímicas que podem auxiliar o organismo na regulação do estresse e na percepção de bem-estar.
“Quando a pessoa treina, existe uma resposta fisiológica importante ao exercício, que envolve mecanismos relacionados ao estresse, ao humor e à ansiedade. Por isso, uma rotina de atividade física bem prescrita pode ser uma ferramenta importante para a saúde mental, principalmente quando entendemos o exercício como parte de um cuidado contínuo e não como uma solução isolada”, explica.
Entre as modalidades que podem contribuir nesse processo está o treinamento resistido, como a musculação, pois o estímulo provocado pelo exercício exige adaptações do organismo e pode influenciar mecanismos relacionados à regulação emocional.
Uma meta-análise publicada neste ano no British Journal of Sports Medicine, reunindo 800 estudos e 57.930 participantes, concluiu que o exercício físico é uma intervenção eficaz para estes sintomas mentais descritos, além de apresentar benefícios adicionais para a saúde geral. A análise reuniu participantes com idades entre 10 e 90 anos e avaliou diferentes modalidades e intensidades de atividade física.
Para Jauan, que atua como personal trainer de forma individualizada há mais de 10 anos, o resultado reforça que não existe uma única modalidade que deva ser adotada por todas as pessoas.
“A musculação é uma ferramenta muito eficiente, mas não precisamos limitar a discussão a ela. Caminhada, corrida, dança, esportes ou exercícios realizados em casa também podem produzir benefícios. O mais importante é encontrar uma atividade que faça sentido para aquela pessoa e que possa ser mantida com regularidade. A consistência é muito mais importante do que buscar um treino perfeito por alguns dias”, afirma o especialista.
Exercício e prevenção entre os mais jovens
A relação entre atividade física e saúde mental também foi observada em pesquisas envolvendo adolescentes. Um estudo publicado no Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, que analisou dados de mais de 13.500 jovens, identificou associação entre a prática regular de atividade física e uma redução de aproximadamente 23% na frequência de automutilação em determinados grupos.
O dado, segundo Jauan, deve ser interpretado dentro de seus limites: a atividade física não elimina fatores de risco nem substitui acompanhamento especializado, mas pode integrar uma rede de proteção e promoção da saúde.
“Precisamos ter muito cuidado para não transformar o exercício em uma promessa de cura. A saúde mental é algo complexo e envolve fatores individuais, sociais e psicológicos. O exercício pode ser uma ferramenta dentro dessa rede de cuidado, mas não substitui psicólogo, psiquiatra ou qualquer outro profissional quando existe sofrimento psíquico ou uma situação que exige acompanhamento”, ressalta.
Em meio à campanha de conscientização anual, o especialista defende uma mudança na forma como o treinamento é percebido pelo senso comum, saindo um pouco da visão exclusivamente estética.
“Quando colocamos o exercício apenas no campo da aparência, perdemos uma parte enorme do que ele representa, já que treinar é também cuidar da capacidade de lidar com o estresse e melhorar a disposição. No Setembro Amarelo, falar sobre movimento é falar sobre uma das ferramentas que podem contribuir para uma vida mais ativa e saudável, sempre entendendo que ela faz parte de um conjunto maior de cuidados”, conclui Jauan.
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Fonte: AF2 Assessoria




