A Universidade Federal do Amazonas lançou o projeto “Territórios Inteligentes e Sustentáveis: Gestão Municipal Estratégica na BR-319”, promovido pela Pró-Reitoria de Inovação Tecnológica (Protec) e pelo Centro de Ciências do Ambiente (CCA), em parceria com o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI). O lançamento foi realizado nas cidades de Humaitá (15/9), Lábrea (16/9) e Careiro (18/9).
O projeto tem como objetivo realizar o diagnóstico participativo e a capacitação de gestores e lideranças municipais do entorno da BR-319, com enfoque em tecnologia, inovação, sustentabilidade e infraestrutura, para o fortalecimento das gestões municipais e o desenvolvimento de territórios mais inteligentes e sustentáveis. As ações abrangem 16 cidades da área de influência da rodovia: Anori, Apuí, Autazes, Beruri, Borba, Canutama, Careiro, Careiro da Várzea, Humaitá, Iranduba, Lábrea, Manacapuru, Manaquiri, Manicoré, Novo Aripuanã, Tapauá. A iniciativa trabalha com diferentes dimensões, todas interligadas, como infraestrutura, mobilidade, saúde, educação, saneamento, monitoramento ambiental, entre outros.
O projeto é desenvolvido em três etapas:
- Diagnóstico participativo: mapeamento e escuta dos atores municipais para identificar demandas e oportunidades locais;
- Formação: capacitação de gestores e lideranças locais por meio de cursos livres de extensão e de especialização lato sensu, promovidos com o apoio do Centro de Educação a Distância (CED) da Ufam;
- Soluções e projetos: proposição e apoio de metodologias aplicáveis para facilitar o mapeamento, o zoneamento, a captação de recursos e a previsibilidade de impactos da BR-319 nos municípios.
Segundo a coordenadora do projeto e diretora do Departamento de Empreendedorismo e Habitat de Inovação (Demphi), professora Maria Angélica de Almeida Corrêa, a iniciativa valoriza os conhecimentos e as vivências dos municípios para se pensar os desafios do desenvolvimento local. A universidade atua como um agente de promoção de capacitação para viabilizar ações e projetos dos municípios. “A gente acredita que os municípios têm uma grande capacidade de trazer suas próprias soluções baseadas nas tecnologias sociais e no uso da sociobiodiversidade local. E a universidade pode apoiar, tanto com os seus docentes como com seus discentes e técnicos, a transformação que essas cidades vão vivenciar. A universidade tem que fazer parte desse projeto, não tem como estar fora”.
O vice-coordenador do projeto e diretor do CCA, professor André Luiz Alencar de Mendonça, explicou que a universidade é um espaço de formação e precisa atuar, por meio da pesquisa e da extensão, para apoiar os debates e as decisões locais com base na ciência. “A gente sabe que têm muitas questões que ainda precisam ser endereçadas. O papel da universidade não é ser a favor da pavimentação da BR-319 ou ser um vetor de ideias contrárias. O que a universidade faz é baseado em ciência, em pesquisa e em extensão, que é o contato com a sociedade. No nosso entendimento, o papel da universidade é estar junto com a população enfrentando os desafios que a pavimentação do trecho do meio vai proporcionar para o território”, ressaltou o docente. A chefe da Divisão Administrativa do CCA, Fernanda Mendes Miranda, também participou das atividades nos três municípios.
O lançamento do projeto contou com a participação da equipe da Secretaria Extraordinária para a Transformação do Estado (Sete) do MGI. Estiveram presentes a diretora de programa Regina Luna Santos de Souza; as gerentes de projeto Maria Gutenara Martins Araujo e Isabela de Jesus da Silva; o coordenador de Inteligência da Diretoria do Cadastro Ambiental Rural da Sete/MGI, Daniel Alves dos Santos; e o consultor da Sete/MGI Flávio José R. de Castro.
Regina Luna Santos de Souza destacou que a secretaria busca trabalhar a partir do contato e da escuta de quem vive a realidade dos municípios para buscar soluções em serviços públicos: “Para que a gente possa entender melhor quais são os problemas públicos, como é que as pessoas convivem com os problemas, o que fazem para lidar com esses problemas e daí, sim, levar isso para o governo federal e desenhar melhores soluções. E não fazer o contrário: inventar uma solução e ver se ela se encaixa no problema local”, afirmou a diretora.
Para a gerente do projeto “Territórios Inteligentes e Sustentáveis”, Maria Gutenara Martins Araujo, a colaboração entre instituições e pessoas é a principal ferramenta para promover ações que protejam os territórios e as populações amazônicas que vivem no entorno da BR-319. “O projeto parte da perspectiva de que a proteção da floresta, dos ecossistemas, dos povos indígenas, das comunidades ribeirinhas e de toda a população exige um esforço conjunto das instituições do Estado e da sociedade. Portanto, nossa expectativa é a de que possamos, de forma colaborativa e a partir dos conhecimentos e das capacidades existentes nos próprios territórios, construir redes fortes, resilientes e capazes de responder de forma estratégica aos desafios. A primeira atividade do projeto foi muito importante: além de possibilitar o convite direto aos gestores municipais para participarem do projeto, foi uma oportunidade de diálogo e aprendizado”, avaliou a gestora.
Formação
A capacitação de gestores e lideranças locais é a principal aposta do projeto para que os municípios estejam preparados para o asfaltamento da BR-319 e o consequente aumento de fluxo na rodovia. “Esse projeto entende que a força dos territórios está nas suas pessoas e que essas pessoas vão tomar, por meio do ensino, boas decisões que toquem os rumos dos territórios da melhor maneira para as populações”, afirmou o diretor do CCA.
A especialização será uma das ações de formação. Com 360 horas e realizada na modalidade de educação a distância (EaD), a especialização oferta 100 vagas, sendo 65 destinadas aos 16 municípios abrangidos pelo projeto, cinco à comunidade universitária da Ufam, dez à ampla concorrência e 20 correspondem a vagas suplementares para candidatos autodeclarados pretos, pardos, indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência. As inscrições seguem até 1º de outubro.
Confira o edital AQUI.
“A partir da especialização a gente vai identificar esses líderes para que eles possam propor soluções baseadas nesse conhecimento que vamos estar compartilhando. Pode haver ideias de projetos transformadores para os municípios. Nossa proposta é ajudar na escrita desse projeto, ajudar a pensar em recursos e até considerar o envolvimento de outros entes, por meio de parcerias. A ideia é que o curso prepare a pessoa, que vai ser um especialista, mas também que promova um conhecimento que transforme o território”, concluiu André Luiz Alencar de Mendonça.
Preparação dos municípios
Gestores municipais de Humaitá, Lábrea e Careiro acompanharam o lançamento do projeto e aproveitaram o momento para relatar os desafios vivenciados pelos municípios e tirar dúvidas. A articulação com os gestores foi realizada com o apoio da Associação Amazonense de Municípios (AMM). As cidades têm buscado na educação ambiental e em projetos de reciclagem para preservar a floresta e promover renda nas comunidades. Porém, a realidade local é complexa e, com a pavimentação da BR-319, os municípios precisam estar preparados para os impactos ambientais e sociais.
Para a secretária executiva de Meio Ambiente de Humaitá, Natalice Cardozo de Aguiar, a formação dos gestores promovida pelo projeto é fundamental para a tomada de decisão no âmbito municipal. “Trazer esse projeto para Humaitá, que é uma das cidades afetadas pela BR-319, vai ajudar muito na busca de soluções para os problemas dos municípios. A BR já está em uso. Então, cabe a gente pensar nos impactos tanto positivos como negativos”, avaliou a gestora. A secretária disse que Humaitá tem investido em palestras e campanhas de conscientização em escolas, abordando temas como desmatamento e queimadas, para controlar as consequências negativas do asfaltamento da rodovia. “Procuramos fazer articulações institucionais para que a possamos fazer que todos vejam quais são os impactos quando a BR for asfaltada. Com uma linguagem mais simples, para que todos entendam que vai trazer desenvolvimento, mas também tem os impactos negativos”, explicou.
O secretário municipal de Meio Ambiente de Lábrea, Zerisfran Bezerra da Silva, avaliou positivamente a chegada do projeto no município, principalmente pela oportunidade de capacitação de servidores e de lideranças locais. “Esse projeto é muito importante, ter a universidade e o ministério aqui, próximo da secretaria. Isso tudo vai contribuir com o município, vai ter capacitação. Às vezes, o município não sabe como conseguir recurso. Então o projeto pode ajudar a acessar recursos para os projetos”, afirmou o secretário. O município está desenvolvendo, nos últimos cinco meses, um projeto de reciclagem de garrafas PET. Com isso, foram recolhidas 16 toneladas de garrafas. “A maioria das garrafas a gente usa para fazer vassoura e o restante a gente usa para reciclagem. No próximo ano, a gente quer incluir a reciclagem de papelão. Nós pretendemos implantar um aterro sanitário na cidade. Então vamos investir também em educação ambiental para que as crianças já criem o hábito de separar os recicláveis”.
A secretária de Turismo de Careiro, Diós Macena, parabenizou a Ufam pela iniciativa e pela postura de diálogo com os municípios: “É a primeira vez que a gente vê alguém chegar para conversar e dizer o que veio fazer, porque está aqui e ouvir para poder iniciar o projeto”, ressaltou. O secretário de Meio Ambiente de Careiro, Elias Assayag, acredita que o projeto vai contribuir para o mapeamento de áreas degradadas na cidade. O gestor disse que Careiro já vem trabalhando no monitoramento do território e das comunidades. “Para que a rodovia não cause impactos negativos na cidade e nas comunidades depois que estiver asfaltada”, acrescentou.

Fonte: UFAM




